2

Como uma perda ressignifica a vida.

A maternidade trouxe uma palavra para mim, que costumo usar muito por aqui.
Essa palavra é a ressignificação.

Se significar quer dizer dar sentido a algo, ressignificar é dar um novo sentido.
Maternar, me ajudou a encontrar sentimentos perdidos em mim, e finalmente dar significado a alguns e um novo significado a outros.
Maternar provocou outras tantas sensações que hoje sou incapaz de nomear.

Hoje me deparei com um post de dois anos atrás nas memórias do Facebook.
Post esse em que eu dava voz à minha dor.
Nele contei toda a minha saga do aborto que sofri.

Eu li, reli, chorei. Lembrei de cada momento doloroso daquele processo. Lembro de cada dor física e psicológica. Lembro dos cinco estágios do luto…

A negação: Demorei a acreditar no que estava acontecendo de fato, na verdade só compreendi quando vi Eduardo chorar numa cadeira de hospital. A minha dor era a dor dele também. Era uma parte de nós, física que já não habitava mais meu ventre. Era aquele filho idealizado que jamais nasceria. Mas de uma forma ou outra, eu queria acreditar que nada daquilo estava acontecendo.

A raiva: É obvio que eu estava com raiva, e raiva para mim sempre vem aliada a culpa, principalmente no mundo materno (“Nasce uma mãe, nasce uma culpa). De alguma maneira culpei a mim mesma pela perda. Culpei um possível descuido, culpei meu corpo imperfeito, culpei anos a fio de pílula anti-concepcional. Joguei culpa e raiva para todos os lados.

A barganha: Lembro bem, que durante a semana, entre o descobrir o aborto e realizar a curetagem, pensei: “Bem que amanhã eu poderia fazer um ultrassom e o coração estar batendo” e “Talvez se não pensar mais nisso possa acontecer um milagre”. Ora, eu mesma nunca acreditei em milagres…

A depressão: Sofri, chorei todas as lagrimas que meu corpo me permitiram chorar. Esqueci da minha existência. Desejei não ter mais filhos, não queria passar por tamanha dor novamente.

A aceitação: Ela veio, com muita, mas muita ajuda mesmo. Tive (e ainda tenho) pessoas incríveis na minha vida que me fizeram passar por essa perda de forma mais leve, hoje percebo que se não fosse por elas em minha vida, talvez eu não tivesse conseguido superar e prosseguir. Talvez seria um muro na minha estrada e não apenas um desvio. Devo muito, mas muito mesmo a essas pessoas, e nem preciso nomeá-las, eles sabem quem são.

A perda, principalmente de um filho, muda muita coisa, se não diria tudo.
Muda o corpo, muda a mente, muda a percepção.
É uma dor que nunca deixará de existir, que fica latente, mas está ali.
Mamãe uma vez me disse que nem que ela tivesse mais 10 filhos, nenhum deles iria ocupar o lugar que meu irmão tem (meu irmão faleceu aos quase 7 meses, quando eu era ainda bem pequena), e hoje eu consigo compreender.
Quando me dizem: “Poxa, mas logo depois você engravidou de gêmeos para compensar…” eu penso: “Mas não compensou nada, ainda sou mãe de 3 filhos, ainda que um deles não esteja aqui.”

E é exatamente isso. Os filhos nunca se vão. Eles vêm pra ficar, nos braços ou somente no coração.
E sou extremamente grata por essa primeira gestação, esse primeiro bebê, que por ventura do destino está longe do meu colo, mas que estará sempre guardado dentro de mim.
E digo a todas as mulheres que passam pela minha vida e me confessam que também passaram por algo semelhante: viva seu luto, entenda sua dor e ressignifique a sua vida, porque de alguma maneira, eles ainda estão aqui.
DSCN4618

Anúncios
5

Vamos falar de coisa boa?!

Só que não.

Pra quem não sabe, eu sofri um aborto ano passado. E escrevo sofri porque eu simplesmente sofri mesmo.

Tava eu lá grávida, toda serelepe quando fui fazer o primeiro ultrasom. Aquele que a gente faz lá pras 7/8 semanas. Mas o meu indicava 5 semanas… tão pititico que não dava nem pra ouvir o coração. Óbvio que aquilo meio que me deu uma gastura, maaaaaas, sei lá, eu nunca enxergo bulhufas em ultrasom mesmo, tava tranquilo. Passou uma semana, passou duas, passou três. E eu lá achando que tinha alguma coisa crescendo dentro de mim, comprando roupinhas e coisinhas junto com amigos e família.

Mas um dia eu tive um sangramento de levinho, e como toda grávida que se preze, já me desesperei e corri pro hospital (de madrugada). E o hospital não tinha ultrasom, corremos pra mais três hospitais, mas nenhum tinha ultrasom ou sequer obstetra. – Nessas horas que o indivíduo para e pensa, porque meu deus, um hospital que se propõe a ter emergência obstétrica não tem ultrasom?! E por que eu sou pobre e não tenho plano que aceita lá naquele hospital bonito do coraçãozinho em Laranjeiras?! – Enfim, cansada, desesperada, e querendo atendimento médico me rendi ao primeiro deles… fui atendida por uma médica que sinceramente, não fazia  a menor questão de me examinar, ou sei lá, de qualquer coisa. A fofa de cabelos desgrenhados e cara amassada me disse que era normal sangramento no primeiro trimestre, que meu colo do útero estava fechado, que era pra voltar pra casa, relaxar e que não era nada… mas me deu um pedido de ultra pra fazer no dia seguinte. Fiquei tranquilona… só que não

No dia seguinte, que pra mim era o mesmo, porque a maravilhosa aqui não dormiu sei lá, mais do que meia hora naquela noite, tentei ligar para TODAS as clinicas de US no Hell de Janeiro, mas tava tudo fechado, afinal, feriado de finados não abre nada por aqui. Só me restava o hospital bonito do coraçãozinho em Laranjeiras, que estava me cobrando 170 dinheiros pela US, eu como assalariada e desesperada, resolvi que iríamos, que 170 dinheiros não é nada perante a minha tranquilidade de saber que estava tudo bem… Onde já se viu esperar até segunda pra saber das coisas.

Chegando no hospital, pra minha surpresa, meu plano era aceito, mas só pra atendimento de emergência. – Por que raios esses malditosfilhosdaputa atendentes de call center não avisam essas coisas pra gente?! – Fiz minha ficha, expliquei tudo pra enfermeira. Tudo lindo, tudo maravilhoso, tudo coração palpitando. Até a hora que eu entrei na salinha meia luz de atendimento, tinham duas médicas de plantão, me examinaram, exame físico tudo ok, colo fechado, e tal. Até a hora do ultrasom… que mostrava lá 5 semanas e nenhum batimento cardíaco… e eu só conseguia pensar WTF?! Mas eu to com OITO semanas. Pois é. Eu não tava. As médicas mandaram eu repetir o exame em uma semana e tal e a ficha ainda não tinha caído. Só caiu quando saí da sala e vi o Dudu com os olhinhos cheios de lágrima. Ali vi que o mundo de esperança e boniteza que eu tinha construído sobre a maternidade tinha ruído. Foi nessa hora que eu desabei, desabei por dias eu acho… parecia que eu pesava uns 800 quilos, mas o bom é que tinha gente ali do meu lado pra me ajudar a dividir esse peso, e hoje eu vejo que eles foram fundamentais para a minha recuperação.

Durante toda uma semana, comecei um processo de desconstrução da minha própria identidade naquele momento, a identidade de grávida. me culpei, culpei meu trabalho, culpei meu estresse, culpei olho gordo, culpei todo mundo. Mas em algum momento eu vi que a culpa não tava em ninguém, alguma coisa tava cagada com a minha gravidez e pronto, ela não foi pra frente. Foi uma semana inteira com cólica, sangrando, passando mal, afinal, não queria passar por uma curetagem… Mas no final dessa uma semana, foi preciso, a dor era tanta, mas tanta que não teve jeito. E não era dor emocional não… era dor física mesmo… que chegou em um ponto que eu não queria mais nada a não ser que tirassem tudo aquilo de dentro de mim.

E dessa vez fui atendida lá naquele primeiro hospital que não tinha ultrasom, mas era do lado da minha casa, a médica prontamente me atendeu e me internou… meu colo do útero não abrira de jeito nenhum e eu estava lá me esvaindo em sangue. Ela foi ótima e me explicou todos os procedimentos que iam fazer comigo, e o melhor, me drogou, e toda aquela dor sumiu, e eu finalmente dormi. E quando acordei no dia seguinte, papai e mamãe estavam lá também, pra ficar lá comigo e pra dar uma folga no coitado do Dudu que dormiu em uma cadeira e hospital.

Um mês depois, voltei no médico que fez a minha curetagem pra pegar o resultado do exame de não sei o que lá… e não tinha dado nada. Eu tava ali, linda, limpa, de endométrio lindo (e já grávida de novo, mas sem saber), com o resultado que não tinha sido nada, foram causas naturais que ninguém entende.

A dor física passou pós curetagem, a dor emocional ficou por um tempo. Perder um filho, mesmo que tão pequeno, tão minúsculo, tão gergelim é sempre uma dor. Uma dor que dói mais na mãe do que em qualquer pessoa. É aquela ferida que sempre dói um pouquinho quando a gente aperta. É a articulação com artrose que chateia quando o tempo muda. Mas a gente aprende a conviver com a dor, chega uma hora que ela faz parte de você, uma pequena parte, mas faz. Ela vai sempre existir pra me mostrar que nada é permanente, que nem tudo é como a gente sonha e que às vezes as coisas dão errado e ponto, não tem nada que eu possa fazer pra mudar isso.

E quando me dei conta disso, a dor da perda do filho que não nasceu, passa a ser secundária, porque ela deixa de tomar conta do que sou e vira parte da nova pessoa que me tornei por causa daquilo. Não foi fácil, nunca é, mas hoje vejo como um quebra-molas que estava ali na minha estrada de terra, e esse quebra-molas me levou pra uma estrada de paralelepípedos. Ainda não é o ideal, mas até chegar numa estrada de asfalto suíço, meuamor, isso leva tempo.

Eu devo agradecer à grandes pessoas que me ajudaram a passar por tudo isso. Primeiro ao Dudu, maridão mesmo, que esteve comigo em todas as horas, inclusive as mais nojentas desse processo. Mamãe e papai, que se viraram e desviraram pra estar comigo, desde o primeiro dia, até não sei mais quantos dias pós curetagem, afinal, sem o amor deles eu não seria ninguém. Minha sogra, que  sempre se mostrou solícita pra me ajudar. Meu núcleo familiar (vó, vô, dinda, tio, prima, cachorro, periquito, papagaio) que mesmo longe não deixou de me apoiar, e dois grandes amigos, que a gente só vê que são grandes quando estão do seu lado quando você tá na merda, Naíra e Edu, amo vocês, não posso esquecer do trabalho, eles foram tão, mas tão compreensivos comigo, que de fato tenho uma dívida de gratidão com todos da empresa, desde os meus chefes até a galera da limpeza.

Eu sei de um monte de gente que sofreu abortos. Um monte mesmo. Mas ninguém conta, só conta quando você também sofre e alguém vira e fala: ah, mas também aconteceu comigo. Sim, aconteceu comigo. E eu não quis que essa parte da minha vida virasse um tabu, uma coisa escondida guardada no cofre. Aconteceu e ponto. Doeu, dói, e ainda vai doer por sei lá quanto tempo. Mas a vida segue, e tô aqui pra mostrar isso.