Como uma perda ressignifica a vida.

A maternidade trouxe uma palavra para mim, que costumo usar muito por aqui.
Essa palavra é a ressignificação.

Se significar quer dizer dar sentido a algo, ressignificar é dar um novo sentido.
Maternar, me ajudou a encontrar sentimentos perdidos em mim, e finalmente dar significado a alguns e um novo significado a outros.
Maternar provocou outras tantas sensações que hoje sou incapaz de nomear.

Hoje me deparei com um post de dois anos atrás nas memórias do Facebook.
Post esse em que eu dava voz à minha dor.
Nele contei toda a minha saga do aborto que sofri.

Eu li, reli, chorei. Lembrei de cada momento doloroso daquele processo. Lembro de cada dor física e psicológica. Lembro dos cinco estágios do luto…

A negação: Demorei a acreditar no que estava acontecendo de fato, na verdade só compreendi quando vi Eduardo chorar numa cadeira de hospital. A minha dor era a dor dele também. Era uma parte de nós, física que já não habitava mais meu ventre. Era aquele filho idealizado que jamais nasceria. Mas de uma forma ou outra, eu queria acreditar que nada daquilo estava acontecendo.

A raiva: É obvio que eu estava com raiva, e raiva para mim sempre vem aliada a culpa, principalmente no mundo materno (“Nasce uma mãe, nasce uma culpa). De alguma maneira culpei a mim mesma pela perda. Culpei um possível descuido, culpei meu corpo imperfeito, culpei anos a fio de pílula anti-concepcional. Joguei culpa e raiva para todos os lados.

A barganha: Lembro bem, que durante a semana, entre o descobrir o aborto e realizar a curetagem, pensei: “Bem que amanhã eu poderia fazer um ultrassom e o coração estar batendo” e “Talvez se não pensar mais nisso possa acontecer um milagre”. Ora, eu mesma nunca acreditei em milagres…

A depressão: Sofri, chorei todas as lagrimas que meu corpo me permitiram chorar. Esqueci da minha existência. Desejei não ter mais filhos, não queria passar por tamanha dor novamente.

A aceitação: Ela veio, com muita, mas muita ajuda mesmo. Tive (e ainda tenho) pessoas incríveis na minha vida que me fizeram passar por essa perda de forma mais leve, hoje percebo que se não fosse por elas em minha vida, talvez eu não tivesse conseguido superar e prosseguir. Talvez seria um muro na minha estrada e não apenas um desvio. Devo muito, mas muito mesmo a essas pessoas, e nem preciso nomeá-las, eles sabem quem são.

A perda, principalmente de um filho, muda muita coisa, se não diria tudo.
Muda o corpo, muda a mente, muda a percepção.
É uma dor que nunca deixará de existir, que fica latente, mas está ali.
Mamãe uma vez me disse que nem que ela tivesse mais 10 filhos, nenhum deles iria ocupar o lugar que meu irmão tem (meu irmão faleceu aos quase 7 meses, quando eu era ainda bem pequena), e hoje eu consigo compreender.
Quando me dizem: “Poxa, mas logo depois você engravidou de gêmeos para compensar…” eu penso: “Mas não compensou nada, ainda sou mãe de 3 filhos, ainda que um deles não esteja aqui.”

E é exatamente isso. Os filhos nunca se vão. Eles vêm pra ficar, nos braços ou somente no coração.
E sou extremamente grata por essa primeira gestação, esse primeiro bebê, que por ventura do destino está longe do meu colo, mas que estará sempre guardado dentro de mim.
E digo a todas as mulheres que passam pela minha vida e me confessam que também passaram por algo semelhante: viva seu luto, entenda sua dor e ressignifique a sua vida, porque de alguma maneira, eles ainda estão aqui.
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2 comentários sobre “Como uma perda ressignifica a vida.

  1. Sabe que descobri seu blog num momento de luto semelhante. Estava na fase do “deixa eu achar outras pessoas que passaram por isso pra eu me consolar”.
    Perdi o bebê antes de descobrir a gravidez. Usava DIU, nunca imaginaria que engravidaria. Abortei no banho.
    Nunca esqueci e tb nunca vou esquecer. E infelizmente algumas ocasiões nos fazem lembrar disso. Uma delas é preenchendo questionário de exame ginecológico qdo chegam as perguntas: qtas gravidez? Já sofreu aborto?
    Levei mais 2 anos pra engravidar, e às vezes me pego imaginando como seria ter os 2 aqui.

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    • Sabrina, bom ver você por aqui, por mais que seja por um motivo não feliz.
      Mas que bom que você deu nome à sua dor, fica mais fácil trabalhar com ela assim.
      Eu também penso às vezes em como seria se tivesse com os três comigo, no caos e na delícia.
      Enfim, tudo é exatamente da maneira como deve ser.
      Obrigada, viu?!

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