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Abnegação, resignação e ressignificação

Esses dias eu li esse texto da Lígia do Cientista que Virou Mãe – Quando o amor aos filhos ressignifica. E desde então o assunto não saiu da minha cabeça. De fato, como ela fala no texto, apego é uma palavra ruim, que remete à apego às coisas, às pessoas, mas não nesse caso. Usando as próprias palavras dela no texto, não encontrei melhor definição para criação com apego nesse minha breve vida de maternagem: “Portanto, quando dizemos “criação com apego“, não estamos falando em criar crianças negativamente dependentes dos pais, despreparadas para a vida, apegadas a bens físicos, muito pelo contrário. Estamos falando de crianças amadas com tal entrega, dedicação, presença e disponibilidade que isso as torna seguras. Quanto mais sabemos que alguém está ali para nós e, junto com ele, está também o seu amor, mais seguros nos tornamos. E segurança emocional traz coragem, firmeza nos passos pelos caminhos da vida, tranquilidade e paz interior.”

Posso dizer com todas as letras que Pedro e Alice ressignificaram minha vida, através de abnegação e resignação.
Pelos sentidos literais das palavras:

ab·ne·ga·ção – Renúncia espontânea do interesse, da vontade, da conveniência própria.

re·sig·na·ção – (resignar + -ção)
1. .Ato ou efeito de resignar.
2. Submissão à vontade de Deus.
3. Exoneração espontânea de uma graça ou de um cargo.
4. Sujeição paciente às contrariedades da vida. = CONFORMIDADE

Mas vocês devem estar pensando: Que palavras negativas você está usando.
Pois é, tal como apego.
Mas vale lembrar que o processo de abraçar a maternidade não é simples, nem gostoso à primeira vista (às vezes, nem nas segundas, terceiras e quartas vistas), é um processo longo e delicado de formar uma nova identidade para aquela mulher que antes não era compulsoriamente responsável pela saúde física e emocional de bebês. Vejam, só, de bebês.
E por que isso é tão difícil? Simplesmente porque ninguém fala sobre isso. A maternidade é tida como algo sublime, endeusável, intocável.
Mas não é. A mãe, sente, chora, se desespera, pensa milhares de vezes em como tudo seria muito mais fácil se não tivesse aquele bebê para cuidar, se dedicar.

Quando me dei conta q11787201_10204902628261099_965240447_nue estava abnegando meus próprios interesses e pensando em prol de outras pessoas, ressignifiquei a palavra. A minha vida está para sempre mudada e ponderações sobre o que é melhor para nós em um contexto familiar a partir de agora sempre fará parte, mesmo que não seja o meu desejo primordial de fato.

E fatalmente as crianças vieram para me dar resignação sobre as coisas que não posso mudar, principalmente referentes à eles dois. De como gostaria de que tivessem os marcos de desenvolvimento ao mesmo tempo, mas não tem, de como gostaria de que chamassem por mim a cada tropeço para dar meu colo, acalentá-los, mas a cada dia se tornam mais independentes e resistentes às próprias quedas. E como sonhei que um dia eles fariam tudo do jeitinho que eu queria, sentaria, comeriam, não se sujariam, não teriam crises histéricas… Só que não. Não estou lidando com robozinhos, mas com mini seres humanos, com isso eles possuem suas próprias vontades e quereres. O que faz com que eu fique muitas vezes de fora, olhando com o coração na mão, mas resignada de que minha função não é seguir lado a lado, mas só mostrar a direção. 11212484_10204902627701085_543816736_n

Hoje, sou muito grata por ter tido a oportunidade de passar praticamente todo o primeiro ano de suas vidas me dedicando exclusivamente à eles e ter visto de perto, todas as primeiras vezes. Fico feliz de eles terem conhecido a mulher que eu era antes e me ajudarem a construir essa nova que sou hoje. Construção essa, através de ressignificação, através de amor.
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Ah, o puerpério…

Eu tive uma gestação chata. Bem chata.
Talvez por ter tido uma gestação interrompida antes e com isso minha estrutura psicológica ter ficado em frangalhos. Talvez por todas as intercorrências, sangramentos, repousos, contrações e ultrasons. Logo, acreditava que quando os bebês nascessem, teria paz de espírito e tudo finalmente ia se encaixar e finalmente desceria uma luz dos céus sobre mim.

Fuem fuem fuem…
Alice e Pedro (94)
Assim como na minha primeira comunhão, onde eu achava que ao tomar a hóstia, viria um feixe de luz e Jesus se apresentaria para mim, eu acreditei que ia bater o olho e amar na primeira hora, minuto, razão, circunstância. Só que não.
Teve a emoção do momento e tal, blá blá blá whiskas sachê… Não é que eu não os amasse quando nasceram, mas é completamente diferente do que sinto hoje.
Ainda tive que lidar com visitas, muitas visitas, na maternidade, em casa… Não me entendam mal, não é que eu não goste de visitas, eu gosto muito da minha casa cheia, dos amigos, família, comida boa e risada. Mas naquele momento eu simplesmente tinha raiva cada vez que meu interfone tocava – ou nem tocava, vinha tanta gente que nem tocar aqui pra cima o porteiro tocava mais.
Com as visitas eu experimentei um sentimento sombrio o qual eu nunca tinha experimentado antes… O ciúme. Pois é, eu fiquei extremamente enciumada das quianças, afinal, eles tinham acabado de sair de dentro de mim e passavam a maior parte do tempo nos braços de outras pessoas e não nos meus, salvo em momentos que eles estavam mamando. Era um tal de querer ver cor do olho, dar beijinho quando a criança tinha acabado de pegar no sono, pegar um pouquinho cada um no colo… Isso me estressava, me tirava do sério.
E os conselhos… ah… esse é um assunto tão discutido que eu prefiro nem entrar no mérito e só fazer cara de alface, porque né, mãe de primeira viagem ninguém dá credibilidade, principalmente quando a pessoa resolve amamentar exclusivo. Acho que eu ouvi de 99,9% das pessoas um “mas você dá só peito?!” num tom de descrença inacreditável.

E sabe o que é tenso isso tudo?!
Tu tá ali, recém mãe, com um (ou dois) pacotinho de dois-quilos-e-meio, que só chora, caga e mama, tentando se entender com ele(s) e você e ainda em que lidar com as expectativas dos outros.
Como se fosse muito fácil, acordar num dia, sem bebê na barriga, os dois do seu lado, um inchaço que parece que não vai embora, um sangramento infinito, um corte na barriga, dois bebês que mamavam por QUARENTA minutos cada um e ainda ter que tomar banho, pentear cabelo, escovar os dentes, tirar o pijama, só para receber visita.
Gente, não dá.
É desumano.

Mas que fique claro que essa é minha opinião e minha vivência particular.
Conheço pessoas que adoram visitas e ficariam extremamente sentidas se não tivesse ido visitá-las.

À todas as pessoas que me visitaram e demonstraram o seu carinho por mim e pelos pequenos, meu muito obrigada, vocês são pessoas extremamente importantes para mim, e minhas sinceras desculpas se por um acaso recebi alguém de mau humor e cara feia. O meu puerpério foi um período tenso de adequação da minha nova vida, e não sei esconder sentimentos tão explícitos. Eu amo todos vocês.

À todas as pessoas que resolvem fazer aquela visita de etiqueta ao recém nascido, use seu bom senso. Mande mensagem, ligue e se realmente a puérpera se sentir confortável, vá visita-la. Ninguém TEM QUE ir conhecer o bebê, isso é convenção da sociedade.
Se a visita acontecer, não espere um lanche, uma mesa pronta, uma casa limpa, às vezes aquela mulher (não foi o meu caso), não tem ninguém pra ajudar, ofereça-se pra fazer algum serviço doméstico e ela poder descansar, porque cuidar de um recém-nascido que mama o dia todo, é exaustivo.

À todas as minhas amigas, primas, etc, com as quais cometi alguma indelicadeza no puerpério. Desculpe, eu não sabia como era. 

Por último, mas não menos importante.
O contato pele a pele mãe-bebê é fundamental para reconhecimento, não somente no pós parto imediato, mas sempre que puder, é calor, é vínculo, é amor. Impossível fazer isso com roupas, portanto, privacidade é uma palavra chave nesse período.

P&A Setembro (143)

Esse post é uma iniciativa do Blog A Cientista que virou mãe. Clicando no nome em azul, você pode ler as instruções de como fazer um vídeo e apoiar outras mulheres em seus pós partos.

E uma explicação bem explicadinha porque eu não visito mais ninguém na maternidade (e no pós parto).
Por que não vou te visitar na maternidade.

Fotos: Fabiana Drummond

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Sorria e Acene

Quando os bebês começaram a crescer, e ter interações maiores com o ambiente e com as pessoas do que uma folha de alface, eu tomei para mim a seguinte filosofia:
Observar, deixar de ser protagonista e virar mera expectadora, às vezes com ares de contra-regra.
Eu os vi sorrirem, rolarem, balbuciarem, sentarem, engatinharem, levantarem.
E agora assisto com um sorriso (e uma taquicardia) eles se soltarem. Ficarem ali, em pé, sem apoios.
Ainda temerosos (eu também) pela queda, mas ganhando confiança, deixando de lado seus temores para em um futuro conseguirem o que os seres bípedes fazem: andar.

Aprender a andar é um evento tão grande na vida de um ser humano que chega a ser esquisito a própria mãe não estimular os filhos.
Eu poderia, mas resolvi deixá-los aprender a andar com as próprias pernas, caindo e levantando, colocando pé ante pé.
Pode ser que demorem um pouco mais para andarem sozinhos, sem andadores ou “empurradores”. Pode ser.
Mas é lindo de ver cada conquista deles (e não minhas), dia após dia.

Assim estamos, cada um fazendo descobertas sobre si mesmo, sobre o domínio do próprio corpo e do corpo do irmão também – às vezes cogito raspar a cabeça dos dois, para ver se acaba a eterna briga de puxão.
Enquanto eles se descobrem, eu estou aqui, num perto-longe, sorrindo e acenando com confiança, para que eles entendam que são capazes, são independentes.

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Nutriz

Nutriz.
Esse é o nome que me acompanha ao longo desses 10 meses.

Segundo o dicionário:
s.f. Linguagem Formal. Aquela cuja função é amamentar; ama ou ama de leite.
Pessoa que se encarrega do filho ou dos filhos de alguém, ainda que não os amamente.
adj.m e adj.f. Linguagem Formal. Que possui a capacidade de nutrir; que sustenta.
(Etm. do latim: nuctrix.as)

Minha função ao longo desses 10 meses, completos hoje, está muito além de apenas amamentar.
Está em nutrir.
Nutrir de carinho, afeto, amor.
Nutrir de brincadeiras, risadas.
Nutrir de aprendizado, meu e deles.

Nos nutrimos durante 10 meses.
E assim continuaremos, sem prazo de validade.

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