Do seio à teta…

223303_473239492720610_1336254935_nPara quem ainda não percebeu, eu sou meio avessa à gravidez. Nada muito grave, mas passei bons anos da minha vida, achando que eu mesma gerar um serzinho dentro do meu próprio corpo era uma coisa bem estranha, e continuo achando, e continuo não gostando de estar grávida mejulguem. Mas lá no fundo, no fundinho, eu sempre soube que seria mãe, não importa como, eu sabia, porque o que me apavorava não era aquela coisinha ali dependente de você, mas era a gravidez em si.
Mas o que eu nunca imaginei, era que o fato de estar grávida fosse mudar tanto a minha concepção de mundo-família-bebê, como mudou. Eu comecei minha gravidez como uma pessoa e estou terminando-a como outra completamente diferente. Tive uma gravidez chata, complicada e cheia de intercorrências, mas todas foram contornadas e chegamos mais longe do que imaginávamos.
Agora no final, bate uma ansiedade para conhecer essas crianças que tanto mexem aqui dentro e um nervoso para colocar em prática tudo o que eu tanto estudei durante esse tempo. E meu estudo, como bióloga e aluna (trancadinha) de fonoaudiologia não poderia ser outro a não ser amamentação.

Eu quase não fui amamentada na vida. E não, não recrimino minha mãe por isso, ela sempre deixou bem claro que não gostou de amamentar e eu respeito isso, mas também não ignoro os fatos de que um desmame precoce e uma introdução alimentar precoce são os possíveis responsáveis para as minhas incontáveis alergias e problemas respiratórios, além dos odontológicos. Eu, bem como a maioria da geração dos anos 80/90, sou respiradora bucal, com palato ogival, com uma leve flacidez da musculatura da face, usei aparelho ortodôntico por um tempo e ainda assim tenho desvio de linha média… Cresci à base de antialérgicos e corticóides, enfim, sou toda errada. Eu sou toda errada e boa parte da geração mamadeira-chupeta também.

Talvez por tudo isso resolvi, encasquetei e quero (e vou) amamentar os gêmeos. Apesar de (quase) todo mundo me dizer que é impossível. Apesar de saber que vou sair da maternidade com uma receitinha de fórmula, porque amamentar é muito cansativo. Apesar de todas as invenções milagrosas como “mamadeira com bico de peito”, “pomada de lanolina”, “concha coletora”, “bico de silicone” que o marketing bebezístico coloca como intermediários entre mãe-bebê. O que era para ser fisiológico se tornou mercadológico, mais um nicho para se ganhar dinheiro. E o que responder quando te perguntam “mas se não precisa, porque vendem?”, a resposta é simples: Eu não preciso de um sapato de salto, mas eu comprei um e uso porque a minha amiga comprou um e disse que é maravilhoso. É o poder do sugestão da mente.

Mesma sugestão essa, que lá na época da minha mãe, colocou na cabeça de todas as mulheres que tinham seus filhos e eram incapazes de amamentar, que seus corpos não funcionavam bem para aquilo, que seu leite era fraco, que seu leite não sustentava o bebê, que o colostro não serve pra nada e você precisa começar com leite artificial nos primeiros dias até o leite descer, que seu filho está muito magro que você precisa dar mamadeira-sustagem-comida-suco-chá pro seu filho ganhar peso. Sugestão essa que é repetida infinitamente ainda nos dias de hoje, quando toda a informação do mundo está ao nosso alcance, em poucos cliques.

E hoje eu escutei uma frase que descreve muito bem esse sentimento: “A cultura popular é válida até um certo ponto, mas nada é mais recomendado do que o que a ciência descreve. A cultura popular dizia que leite com manga matava e que mulher menstruada não podia lavar a cabeça, coisa que não tem cabimento”. E a cultura popular é o que nos rodeia, e nos sentimos tão compelidos a fazer parte do grupo, que não percebemos isso e aceitamos tudo o que vem de mão beijada, sem antes olhar pro que realmente é o que nosso instinto manda.

Quando eu vejo um bebê e uma mãe aparentemente saudável amamentando-o com mamadeira, eu reprimo o meu impulso de julgar (sou humana também, tá?) e penso nos fatores que levaram àquela mãe à não amamentar sua prole. Penso em mil hipóteses, afinal, existem de fato mulheres que não podem amamentar (HIV positivo, algumas cirurgias na mama…), mulheres que não querem amamentar e mulheres que sonhavam amamentar mas que foram ludibriadas pelo sistema de saúde sem preparo para amparar nutrizes, um desespero pelo choro desconsolado do bebê e uma pressão familiar pela introdução de leite artificial (Para ler mais, clique aqui). Aí fico pensando em tudo o que aquela mãe passou… mastite, fissura, dor, informações erradas, pega errada, tudo errado. Aí o sonho rui, porque ninguém disse praquela mãe, que amamentar dói, que é desconfortável, que o bebê fica horas pendurado no seu peito, que é só aquilo que acalma.
Muito pelo contrário… o que a mídia mostra, é que o aleitamento materno é o ideal, mas a mídia também mostra que a mãe tem que ser mãe, dona de casa, linda, limpa, escovada, receber todos com sorriso no rosto e ainda por cima ser uma amante daquelas para o marido. Aí eu te pergunto, dá pra conciliar? A resposta é simples: Não.

E aí, o que fazer? Negligenciar uma dessas coisas. E às vezes, essa negligência é inconsciente (atente para o fato que não estou chamando ninguém que não amamenta de negligente), vem da certeza coletiva da sociedade que o bebê é um estorvo e precisa ser calado de qualquer maneira, com chupeta ou mamadeira, e se seu corpo não aguenta (por “n” motivos) fazer isso sozinho, que resolva o problema de uma vez. A sociedade não quer que você procure ajuda para amamentar, a sociedade acha feio pedir ajuda (para qualquer coisa), mesmo sabendo que 99% das intercorrências da amamentação podem ser manejadas a fim de uma amamentação exclusiva. A sociedade acha feio quando mulheres amamentam na rua, levam a olhares constrangedores, porque o seio, objeto de desejo, não pode ficar exposto, mesmo que seja para nutrir uma criança.

O sucesso da amamentação depende de uma tríade, que deveria ser infalível, mas o que mais vemos é o contrário. A tríade mãe-família-sistema de saúde, deveria apoiar de todas as maneiras o aleitamento, mas de alguma forma sempre algum dos pontos está falho. Por isso, se alguém, assim como eu, quer (e vai) amamentar, oriente sua família, eles são a base do seu apoio, e se tiver algum problema, procure um pediatra (que apoie a amamentação exclusiva e não receite fórmula na primeira oportunidade), um banco de leite, uma consultora em amamentação, uma fonoaudióloga, mastologista, todos os tipos de profissionais e ajuda antes de desistir, para que não tenhamos uma amamentação roubada.

A luta de transformar o seio em teta não é contra quem oferece a mamadeira, a luta é contra o sistema que torna isso muito mais fácil, é contra fórmulas serem vendidas indiscriminadamente nos mercados, é contra o apelo do mercado para mamadeiras e chupetas. É contra acreditarmos que temos um bonequinho bonitinho ali, mas ele não pode chorar sem um motivo que seja, qualquer um, que todos acreditam que é fome. Nem todo choro é fome. Mas todo choro é incômodo.
E o meu choro é incômodo de ver tudo isso.

E à quem teve sua amamentação roubada, o meu abraço. À quem não pode amamentar, o meu abraço. À quem não quer amamentar, o meu abraço, porque minha função nesse mundo, eu juro, é acolher, e durante a gravidez que tanto me incomoda, mas que me proporcionou acolher duas crianças no meu útero, foi que percebi isso.

Seguem alguns links que podem ajudar e muito a quem deseja amamentar:

Localizador de Banco de Leite Humano

Amamentar é – As verdades sobre o Aleitamento Materno

 La leche league.

Aleitamento

Amamentar é tudo de bom

E alguns artigos excelentes para quem quer se embasar cientificamente, para a amamentação.

Amamentação – Crenças e Mitos
Amamentação – um híbrido da Natureza-Cultura
Os benefícios da Amamentação para a saúde da mulher
As vivências da amamentação para um grupo de mulheres: nos limites de ser “o corpo para o filho” e de ser “o corpo para si”
Amamentação natural como fonte de prevenção em saúde
Visão das mulheres que amamentam
Benefícios da amamentação para a saúde da mulher e da criança: um ensaio sobre as evidências
Manejo clínico das disfunções orais na amamentação
Mitos e crenças sobre o aleitamento materno

E o mais lindo de todos: A Cartilha da UNICEF!!! ❤ ❤

Somos mamíferos! Podemos amamentar!

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4 comentários sobre “Do seio à teta…

  1. Texto lindo, Carol. Acho que a gente precisa mesmo de muita informação quando decide fazer alguma coisa que vai contra a maré. E amamentar estranhamente é uma delas. Informação para justificar, informação principalmente para nos dar forças frente aos obstáculos e para não apavorarmos pensando que eles significam que não vai dar certo. Quem diz que é impossível amamentar gêmeos simplesmente está afirmando que todos os gêmeos que nasceram antes do advento da mamadeira e do leite em pó não poderiam ter sobrevivido. Balela, né? Cuide-se bem nessa reta final e, quando os bebês nascerem, ligue o que eu chamo de escuta esquizofrênica: aquela que nem registra os comentários sem noção e faça aquilo que você deseja. Amamentar tem suas dificuldades. Mas é muito bom e pode ser uma experiência muito feliz. Abraço grande, Alê.

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  2. Eu sempre tive o desejo de ser mãe e quando engravidei me veio o medo de não conseguir amamentar por casa de dores e fissuras, pois sou bundona e também decidi que queria cesaria por medo das dores do parto normal e não me arrependo ,pois minha recuperação foi ótima e estou amando amamentar nao tive problemas com meu seio pois durante a gestação li muito sobre a pega correta e cosegui fazer com que a minha bebê fizesse a pega corretamente, e pretendo amamentar exclusivamente até os 6 meses! Amo ler seu blog e estou no mesmo grupo de mães que você e não vejo a hora de conhecer seus baby’s!

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  3. Oi, Carol! Primeiro, parabéns pelo nosso dia hoje! (Dia do biólogo)! Olha, eu já escrevi sobre amamentação lá no meu blog. Ela é diferente pra cada mulher, pode ser muuuuito difícil, mas pra mim está sendo muito bom e eu digo: eu simplesmente AMO amamentar a Liana. Olha, amamentar 2 não é impossível não! Você vai conseguir! Pra isso: informação, força de vontade (tudo isso você já tem), auxílio da sua família e de profissionais responsáveis.
    Beijos, Rita

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  4. Excelente post, Carol!
    Informação, informação, informação… Não canso de repetir: essa é a chave! Tenho certeza que a experiência de amamentação de vcs 3 não será simples, mas será linda!!!
    Beijos triplos!!! 😉

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