Vamos falar de coisa boa?!

Só que não.

Pra quem não sabe, eu sofri um aborto ano passado. E escrevo sofri porque eu simplesmente sofri mesmo.

Tava eu lá grávida, toda serelepe quando fui fazer o primeiro ultrasom. Aquele que a gente faz lá pras 7/8 semanas. Mas o meu indicava 5 semanas… tão pititico que não dava nem pra ouvir o coração. Óbvio que aquilo meio que me deu uma gastura, maaaaaas, sei lá, eu nunca enxergo bulhufas em ultrasom mesmo, tava tranquilo. Passou uma semana, passou duas, passou três. E eu lá achando que tinha alguma coisa crescendo dentro de mim, comprando roupinhas e coisinhas junto com amigos e família.

Mas um dia eu tive um sangramento de levinho, e como toda grávida que se preze, já me desesperei e corri pro hospital (de madrugada). E o hospital não tinha ultrasom, corremos pra mais três hospitais, mas nenhum tinha ultrasom ou sequer obstetra. – Nessas horas que o indivíduo para e pensa, porque meu deus, um hospital que se propõe a ter emergência obstétrica não tem ultrasom?! E por que eu sou pobre e não tenho plano que aceita lá naquele hospital bonito do coraçãozinho em Laranjeiras?! – Enfim, cansada, desesperada, e querendo atendimento médico me rendi ao primeiro deles… fui atendida por uma médica que sinceramente, não fazia  a menor questão de me examinar, ou sei lá, de qualquer coisa. A fofa de cabelos desgrenhados e cara amassada me disse que era normal sangramento no primeiro trimestre, que meu colo do útero estava fechado, que era pra voltar pra casa, relaxar e que não era nada… mas me deu um pedido de ultra pra fazer no dia seguinte. Fiquei tranquilona… só que não

No dia seguinte, que pra mim era o mesmo, porque a maravilhosa aqui não dormiu sei lá, mais do que meia hora naquela noite, tentei ligar para TODAS as clinicas de US no Hell de Janeiro, mas tava tudo fechado, afinal, feriado de finados não abre nada por aqui. Só me restava o hospital bonito do coraçãozinho em Laranjeiras, que estava me cobrando 170 dinheiros pela US, eu como assalariada e desesperada, resolvi que iríamos, que 170 dinheiros não é nada perante a minha tranquilidade de saber que estava tudo bem… Onde já se viu esperar até segunda pra saber das coisas.

Chegando no hospital, pra minha surpresa, meu plano era aceito, mas só pra atendimento de emergência. – Por que raios esses malditosfilhosdaputa atendentes de call center não avisam essas coisas pra gente?! – Fiz minha ficha, expliquei tudo pra enfermeira. Tudo lindo, tudo maravilhoso, tudo coração palpitando. Até a hora que eu entrei na salinha meia luz de atendimento, tinham duas médicas de plantão, me examinaram, exame físico tudo ok, colo fechado, e tal. Até a hora do ultrasom… que mostrava lá 5 semanas e nenhum batimento cardíaco… e eu só conseguia pensar WTF?! Mas eu to com OITO semanas. Pois é. Eu não tava. As médicas mandaram eu repetir o exame em uma semana e tal e a ficha ainda não tinha caído. Só caiu quando saí da sala e vi o Dudu com os olhinhos cheios de lágrima. Ali vi que o mundo de esperança e boniteza que eu tinha construído sobre a maternidade tinha ruído. Foi nessa hora que eu desabei, desabei por dias eu acho… parecia que eu pesava uns 800 quilos, mas o bom é que tinha gente ali do meu lado pra me ajudar a dividir esse peso, e hoje eu vejo que eles foram fundamentais para a minha recuperação.

Durante toda uma semana, comecei um processo de desconstrução da minha própria identidade naquele momento, a identidade de grávida. me culpei, culpei meu trabalho, culpei meu estresse, culpei olho gordo, culpei todo mundo. Mas em algum momento eu vi que a culpa não tava em ninguém, alguma coisa tava cagada com a minha gravidez e pronto, ela não foi pra frente. Foi uma semana inteira com cólica, sangrando, passando mal, afinal, não queria passar por uma curetagem… Mas no final dessa uma semana, foi preciso, a dor era tanta, mas tanta que não teve jeito. E não era dor emocional não… era dor física mesmo… que chegou em um ponto que eu não queria mais nada a não ser que tirassem tudo aquilo de dentro de mim.

E dessa vez fui atendida lá naquele primeiro hospital que não tinha ultrasom, mas era do lado da minha casa, a médica prontamente me atendeu e me internou… meu colo do útero não abrira de jeito nenhum e eu estava lá me esvaindo em sangue. Ela foi ótima e me explicou todos os procedimentos que iam fazer comigo, e o melhor, me drogou, e toda aquela dor sumiu, e eu finalmente dormi. E quando acordei no dia seguinte, papai e mamãe estavam lá também, pra ficar lá comigo e pra dar uma folga no coitado do Dudu que dormiu em uma cadeira e hospital.

Um mês depois, voltei no médico que fez a minha curetagem pra pegar o resultado do exame de não sei o que lá… e não tinha dado nada. Eu tava ali, linda, limpa, de endométrio lindo (e já grávida de novo, mas sem saber), com o resultado que não tinha sido nada, foram causas naturais que ninguém entende.

A dor física passou pós curetagem, a dor emocional ficou por um tempo. Perder um filho, mesmo que tão pequeno, tão minúsculo, tão gergelim é sempre uma dor. Uma dor que dói mais na mãe do que em qualquer pessoa. É aquela ferida que sempre dói um pouquinho quando a gente aperta. É a articulação com artrose que chateia quando o tempo muda. Mas a gente aprende a conviver com a dor, chega uma hora que ela faz parte de você, uma pequena parte, mas faz. Ela vai sempre existir pra me mostrar que nada é permanente, que nem tudo é como a gente sonha e que às vezes as coisas dão errado e ponto, não tem nada que eu possa fazer pra mudar isso.

E quando me dei conta disso, a dor da perda do filho que não nasceu, passa a ser secundária, porque ela deixa de tomar conta do que sou e vira parte da nova pessoa que me tornei por causa daquilo. Não foi fácil, nunca é, mas hoje vejo como um quebra-molas que estava ali na minha estrada de terra, e esse quebra-molas me levou pra uma estrada de paralelepípedos. Ainda não é o ideal, mas até chegar numa estrada de asfalto suíço, meuamor, isso leva tempo.

Eu devo agradecer à grandes pessoas que me ajudaram a passar por tudo isso. Primeiro ao Dudu, maridão mesmo, que esteve comigo em todas as horas, inclusive as mais nojentas desse processo. Mamãe e papai, que se viraram e desviraram pra estar comigo, desde o primeiro dia, até não sei mais quantos dias pós curetagem, afinal, sem o amor deles eu não seria ninguém. Minha sogra, que  sempre se mostrou solícita pra me ajudar. Meu núcleo familiar (vó, vô, dinda, tio, prima, cachorro, periquito, papagaio) que mesmo longe não deixou de me apoiar, e dois grandes amigos, que a gente só vê que são grandes quando estão do seu lado quando você tá na merda, Naíra e Edu, amo vocês, não posso esquecer do trabalho, eles foram tão, mas tão compreensivos comigo, que de fato tenho uma dívida de gratidão com todos da empresa, desde os meus chefes até a galera da limpeza.

Eu sei de um monte de gente que sofreu abortos. Um monte mesmo. Mas ninguém conta, só conta quando você também sofre e alguém vira e fala: ah, mas também aconteceu comigo. Sim, aconteceu comigo. E eu não quis que essa parte da minha vida virasse um tabu, uma coisa escondida guardada no cofre. Aconteceu e ponto. Doeu, dói, e ainda vai doer por sei lá quanto tempo. Mas a vida segue, e tô aqui pra mostrar isso.

 

 

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5 comentários sobre “Vamos falar de coisa boa?!

  1. Carol, compreendo bem tudo o que passou… Minha primeira gravidez, veio após uma cirurgia de ovários, que me fora indicada por um diagnóstico de infertilidade… Um mês após a cirurgia, veio o resultado mais esperado da minha vida! Eu estava gravida! Fiz a primeira ultra com umas 5 semanas e o embrião não fora visualizado… Fui repetindo ultras semanais até nove semanas e meia de gestação, com o saco gestacional crescendo e crescendo, completamente oco… É difícil relembrar meu sofrimento nessas semanas, afinal… Eu estava ou não estava grávida??? Muita confusão mental… No final da ultima ultra, foi diagnosticada finalmente uma gravidez anembrionada, ou “ovo cego” e uma curvetearem deveria ser realizada pois meu organismos não da a sinais para “eliminar” aquela situação… Uma duplicidade de sentimentos invadiu meu ser… Por um lado, queria me livrar daquela “bola” oca crescendo em mim sem nenhuma finalidade, e por outro, não queria me desfazer da minha tão sonhada gravidez e da esperança de poder ser mãe… Te digo que o dia da primeira curetagem foi um dos mais tristes da minha vida, isso foi em 1993… No dia em que eu completava 2 anos de casada com meu primeiro marido, em 23/2… Ao injetarem a medicação para promover contrações, eu chorava e chorava, não de dor física, mas naquele momento, minha alma doía… Passei muito mal com a anestesia, vomitei horrores… Alguns dias depois, ainda em frangalhos, ao fazer uma nova ultra, fui informada pela obstetrícia que ficaram retidos fragmentos de saco gestacional e que eu teria que passar por uma segunda curetagem… Durante oito anos, depois de tudo isso, e após 5 tentativas de inseminação artificial, não engravidei mais… Eu não ovulava… Fiz um enxoval completo de bebê ao longo desses anos… Quase enlouqueci… Lidar com a infertilidade é muito doloroso e difícil… Bem… Em 2000, já com meu casamento indo por água abaixo, em parte por isso, conheci o William… Bem… Ele diz que fez meus hormônios funcionarem… Engravidei do Gabriel, o anjo das boas novas, no final de 2000, em meio a um processo difícil de separação… Foi uma época difícil, teria que superar muitas dificuldades, deu um no na minha cabeça… Entre o Gabriel e o Raphael, meu anjos que você conhece bem, tive uma outra gravidez, e, quando estava com cinco semanas, com o embrião presente, passei por fortes aborrecimentos, decorrentes da minha sofrida separação… Senti fortes cólicas… No dia seguinte, nada de coração batendo… E mais uma vez, repeti a ultra por umas 3 semanas, até o diagnóstico de que o embrião havia ” morrido”… Mais uma vez, meu organismo não tentou “expulsar” naturalmente aquela situação, e por isso, tive que me submeter novamente à terceira curetagem da minha vida… Desta vez, com uma raiva e revolta imensas, além de culpa, pela situação que causara aquilo… Um ano depois, engravidei do meu segundo anjo, o da saúde, o Raphael… Eu não era mais estéril!!!!!
    Minha primeira gravidez foi aos 33/34 anos, e a segunda, aos 38 anos…
    Hoje, mais madura, o que eu tiro disso tudo, é que Deus tem planos para nós… Quando somos do bem, Ele sempre escolhe o melhor caminho… Nem sempre o que queremos é o melhor para nós… E que tudo tem seu tempo…
    Deus te presenteou com seus gêmeos, uma nobre missão… Talvez, o que você tenha passado há poucos meses, tenha acontecido para que você ganhasse e valorizasse muito mais esse presente de Deus!!!
    Beijos no seu coração!

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    • Carlinha, MUITO, MUITO OBRIGADA. Pela sua história, pelas suas palavras, pela sua compreensão. Vovó sempre me falou que Deus escreve certo por linhas tortas. Ainda bem que o William apareceu na sua vida, ainda bem que o Dudu existe na minha. Ainda bem que a tristeza de tudo isso fica um pouco, mas a maior parte dela se vai.
      Que meus filhos sejam tão perfeitos quanto os seus!!! ❤

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      • Carol, querida, você é especial! Como já te disse, eu é quem agradeço pelo espaço acolhedor… São histórias que não são esquecidas, porém, depois de um tempo, são lembradas com conformismo e aceitação…
        Sua avo está certa e a vida nos vai ensinando…
        Gabriel e Raphael não são apenas anjos, são presentes de Deus na minha vida… E, talvez, por causa de tantas dificuldades, eu os valorize mais que a mim mesma!!!
        Com meus filhos, pude aprender e colocar em prática tudo o que representa uma família na vida… Dou a eles o amor que não tive… Deus foi muito generoso comigo por permitir isso…
        William não é nome de anjo, mas foi outro enviado de Deus!!!
        Pedro e Alice tem a sorte de ter pais como vocês!!!
        Sejam uma família muito feliz!!!
        Beijos nos 4 corações!!!

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  2. Eis que chego aqui após o doloroso aborto. Daqui dois dias farei mês em que passei por essa experiência triste. Fico contente em ver histórias como a sua, afinal, você terá dois lindos bebês! Parabéns e que tudo ocorra muito bem com vcs! Bom saber que engravidou tão na sequência, pq minha médica me pediu 3 longos meses para voltar a tentar. Não sei se espero tudo isso ou tento como quem não quer nada…

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  3. Cheguei no seu blog sei lá como e fiquei!
    Qdo li esse seu post me identifiquei muito… e chorei…
    Abortei sem saber que estava grávida, engravidei sem saber, enqto me recuperava de uma cirurgia de endometriose – onde corri o risco de me tornar infértil.
    Achei que não doeria tanto pois não houve a comemoração antes do aborto, só o susto de não saber o que estava acontecendo. Mas doeu. E ainda dói, principalmente por não ter conseguido engravidar novamente. Como vc escreveu essa dor “vai sempre existir pra me mostrar que nada é permanente, que nem tudo é como a gente sonha e que às vezes as coisas dão errado e ponto, não tem nada que eu possa fazer pra mudar isso”.
    Só entendi que tudo isso aconteceu pra me mostrar que minha doença se curou.
    Bjos pra vc e seus “macaquinhos”!

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